“Sabia que o risco de morte existia”, diz documentarista brasileira presa e deportada na Nicarágua

Meu nome é Emilia Mello, sou cineasta documentarista com dupla cidadania brasileira e americana, filha de pais brasileiros, mas criada nos Estados Unidos, hoje morando em Paraty (RJ). Tenho 40 anos e muito respeito pelo povo e pela história da Nicarágua, país que conheci em 1999 ao trabalhar como voluntária. Na época, os nicaraguenses tentavam se recuperar dos desastres causados pelo furacão Mitch, tempestade do ano anterior que devastou diversas cidades e deixou milhares em condição de carência. Resolvi ajudar ao contribuir com o trabalho de reconstrução do país.

Na Nicarágua, tive a oportunidade de trabalhar junto com os sandinistas que guerrilharam na revolução dos anos 80, sendo acolhida em uma rede para ajudar as vítimas da tempestade. Foi uma experiência muito bonita, principalmente ouvir as histórias de como conseguiram, mesmo sendo um país pequeno, vencer numa guerra contra as maiores potências mundiais e a ditadura vigente — tudo com uma força de vontade e um coração imensos. Eles realmente batalharam para conseguir a democracia e levam estes ideais até hoje.

Voltando para Nicarágua em 2018, eu vi a mesma dedicação e luta para os ideais democráticos mesmo agora lutando contra líderes que se dizem ser sandinistas. Desde abril, o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo tem atacado qualquer manifestação contra eles. Usam armas de fogo, forças paramilitares, processos extrajudiciais e a mídia para perseguir qualquer opositor. Em resposta, os estudantes e lideranças comunitárias continuam protestando e, para mim, são eles os verdadeiros herdeiros da revolução dos anos 70 e 80.

Quando fui detida, eu estava acompanhando de estudantes que apesar de serem alvo de vários ataques da polícia, sendo muitas vezes classificados como terroristas e detidos arbitrariamente, decidiram continuar se manifestando. Os protestos começaram pedindo proteção na reserva natural de Indio Maíz e na proteção do Rio San Juan contra o projeto de canal proposta pelo governo em parceria com empresas chinesas. Com a reação tão violenta do governo, as demandas agora são de proteção dos direitos humanos básicos dos Nicaraguenses, a preservação da autonomia universitária, o direito de protestar sem ameaça de morte, e, finalmente, a antecipação das eleições gerais.

Acontece que desde essa experiência em 1999, criei um laço com o país e, como documentarista, neste ano surgiu a oportunidade de trabalhar na Nicarágua registrando a situação atual de forte oposição a Ortega, violência policial e centenas de mortes. Fui convidada para trabalhar em um documentário produzido por pessoas de fora do país e segui para lá, me juntando a profissionais locais.

Eu estava há cerca de um mês acompanhando esses jovens nos protestos, trabalhando nas filmagens, e me surpreendi com a situação nas ruas desde que cheguei. As pessoas atualmente estão com medo de sair até para comprar comida e muita gente vive escondida, evitando a violência das autoridades. Quando você sai de casa, há sempre um clima de insegurança, além ser necessário ter cuidado ao usar o telefone e qualquer outro meio de comunicação. As autoridades estão dando ordem de prisão arbitrariamente e não é raro ver algumas delas sendo capturadas, em uma perseguição sistemática: o número de refugiados que falam oficialmente é de 25 mil, mas acredito que ele pode ser muito maior.

No dia 25, um sábado, eu estava em Manágua com outros profissionais de filmagem e nós iríamos acompanhar estudantes, mais uma vez, em protestos convocados para aquele dia tanto na capital, quanto na cidade de Granada, mais ao Sul. A ideia era sair de uma cidade e ir para a outra, em caravana, e já sabíamos que os riscos eram altos. Nós tínhamos certeza de que os policiais estariam a postos durante todo o trajeto, mas mesmo assim resolvemos fazer a viagem escolhendo rotas menos convencionais para evitar os encontros. No caminho, ouvíamos no rádio que já estavam capturando várias pessoas em Manágua e achamos que estávamos no caminho certo. No entanto, não demorou até que fossemos parados pela polícia.

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