Coreia do Norte descarta abrir mão de armas até que EUA ‘eliminem a própria ameaça nuclear’

Em editorial na agência de notícias estatal, Pyongyang esclarece como interpreta compromisso por ‘desnuclearização’ em meio a conversas travadas de paz

Qualquer acordo para a Coreia do Norte abrir mão de seu arsenal nuclear precisa incluir primeiro “a remoção completa das ameaças nucleares dos Estados Unidos” ao país, apontou nesta quinta-feira a mídia estatal norte-coreana. A nova manifestação de Pyongyang traz uma das mais claras explicações de como o país de Kim Jong-un interpreta o compromisso firmado com o presidente americano, Donald Trump.

Em junho, Trump e Kim emitiram um comunicado conjunto que afirmava o compromisso do Norte com a “desnuclearização completa da Península Coreana” com “garantias de segurança” dos EUA ao histórico rival. No entanto, visões conflitantes e vagas sobre o que “a desnuclearização” de fato significava complicaram as negociações de paz, agora aparentemente travadas.

“Quando nos referimos à Península Coreana, o termo envolve a área da RPDC mais o território sul-coreano em que armas nucleares e outras formas de forças agressivas dos EUA estão instaladas”, disse o editorial da agência de notícias KCNA, com referência à sigla do nome oficial do país, República Popular Democrática da Coreia.

O Norte rejeita a demanda americana por um desarmamento unilateral. O editorial da KCNA ressalta que Washington deve abandonar a “ilusão” de forçar Pyongyang a abdicar de suas armas nucleares “via pressão e opressão”. Para Pyongyang, os Estados Unidos precisam entender o significado do compromisso “antes que seja tarde”.

“Quando também nos referimos à ‘desnuclearização da península coreana’, isso deveria ser entendido corretamente como a remoção de todos os fatores de ameaça nuclear não somente do Norte e do Sul, mas de todas as áreas vizinhas de onde a península coreana é alvo”, reforçou a agência estatal.

O presidente americano trabalha por um novo encontro com Kim, previsto para o início do próximo ano, quando os dois líderes devem discutir a definição exata de desnuclearização.

Para o Norte, o esforço de desnuclearização da península “nunca poderá se tornar realidade a menos que a a RPDC e os EUA façam esforços conjuntos”. Na visão do regime de Kim, as ameaças americanas forçaram o Norte a desenvolver um dissuasor nuclear.

“Seria apropriado dizer que a desnuclearização da península coreana significa ‘remover completamente as ameaças nucleares dos EUA à RPDC’ (à Coreia do Norte), antes de significar a eliminação de sua dissuasão nuclear”, argumentou Pyongyang.

“Guarda-chuva nuclear”

Os Estados Unidos enviaram armas nucleares na Coreia do Sul de 1958 a 1991. Desde que as ogivas foram retiradas do aliado, Washington ampliou seu “guarda-chuva nuclear” de apoio ao Japão e à Coreia do Sul com bombardeiros e submarinos baseados em outros lugares.

Em entrevista coletiva em Washington na terça-feira, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Robert Palladino, disse que não iria “dividir as palavras” quando questionado se a promessa de “desnuclearização da Península Coreana” significa apenas a Coreia do Norte ou a região mais ampla.

“Estamos focados na desnuclearização da Coreia do Norte”, afirmou Palladino. “Continuamos confiantes e estamos ansiosos para os compromissos que o presidente Kim e o presidente Trump fizeram”.

Um porta-voz do presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, reiterou que Kim busca a “desnuclearização completa” e se recusou a comentar a eventual retirada da proteção nuclear americana a Seul, já que “não há necessidade de responder cada comentário da KCNA”.

Nesta semana, a Coreia do Norte condenou a ampliação de sanções pelo governo dos Estados Unidos contra suas autoridades,  alertando que o retorno das “trocas de fogo” poderia bloquear indefinidamente o seu processo de desarmamento nuclear. A provocativa declaração veio depois que Washington anunciou sanções contra três funcionários do governo norte-coreano por supostos abusos contra os direitos humanos. Entre os alvos das sanções está Choe Ryong Hae, que já foi considerado o braço-direito de Kim.

Os EUA informaram que não suspenderão as sanções contra o país até constatarem mais progresso verificável na desnuclearização do país. Washington também refuta insinuações de que reduziria sua presença militar na região como parte de um acordo com a Coreia do Norte. Após a cúpula com Kim, no entanto, Trump surpreendeu ao anunciar que o Pentágono cancelaria a maior parte de seus exercícios militares conduzidos com os sul-coreanos.

Embora tenha reconhecido Trump por sua vontade em melhorar as relações com o Norte, Pyongyang acusou o Departamento de Estado dos EUA de estar “pronto a levar a relação entre Coreia do Norte e EUA de volta ao ‘status do ano passado, quando era marcada por trocas de fogo”. Em nota, o regime disse ainda que aumentar o peso das sanções para fazer pressão “será seu maior erro de cálculo e travará o caminho para a desnuclearização da península coreana para sempre”. EUA e Coreia do Norte se acusam de não terem cumprido sua palavra.

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