Um brasileiro no Daytona Beach Bike Week

Por muitos anos li relatos sobre viagens de motos pelo mundo e isso se tornou um grande sonho na minha lista de realizações. Sempre li sobre as pessoas desprendidas que abriam mão do conforto de casa e se lançavam neste ato de brutalidade consigo mesmo que é se submeter a uma nova cultura, nova língua, nova culinária, enfim novos hábitos, longe do conforto garantido pela rotina do próprio ambiente.

Assim, perto de completar os meus 40 anos, resolvi que em 2019 eu faria uma viagem diferente. Queria ir para qualquer outro país e fazer uma trip solitária, para testar meus limites e desafiar meu grau de resiliência. Após ler muito sobre as opções disponíveis, percebi que meu período de férias coincidia com um dos maiores encontros de motos do mundo, que reúne anualmente 500 mil motociclistas nos seus 10 dias de realização. Era o Daytona Bike Week, em sua 78º edição.

No primeiro momento fui estudar sobre o evento. Como chegar, como alugar uma moto, o que eu teria pra fazer, os limites impostos pelo idioma, pela legislação de trânsito e etc. Tudo parecia muito complicado, exatamente do jeito que gosto… rsrsr. Assim, em novembro de 2018 eu comecei os preparativos. Comprei as passagens aéreas para Miami e reservei um hostel em Miami Beach. Atualizei o passaporte e renovei o visto americano. A parte estrutural da viagem estava pronta. Agora faltava resolver os detalhes da viagem, como locação de moto, a viagem entre Miami Beach e Daytona Beach, distantes pouco mais de 400 km.

Ao pesquisar pela locação das motos tive a primeira grande decepção. Os preços eram quase proibitivos para locar uma moto decente nos Estados Unidos. Reunindo os seguros, quase que obrigatórios para se evitar dissabores, a própria locação e as demais taxas, o valor ficaria mais que quatro vezes o que se gastaria para locar um veículo de quatro rodas. Mas, em uma dessas madrugadas e conversando com muita gente sobre o projeto, surgiu uma luz no final do túnel. Descobri o site RidersShare.com, uma espécie de AIR BNB das motos.

Eu tinha decidido que queria diversificar. Sair das motos touring, com as quais estou acostumado, já que tenho uma Tenere 1200 e alugar uma Harley, mais condizente com o espírito Bike Week em Daytona. O problema é que eu nunca tinha nem sequer me sentado em uma Harley. Esse seria mais um desafio.

Voltando à história da RidersShare, achar esse site foi uma grande sorte. Ao pesquisar sobre as motos disponíveis, surgiram várias Harleys. Uma em especial me chamou a atenção. Era uma Forty-Eight de 29 polegadas, ou seja, mais adequada para meus quase 1.90 m de altura. Resolvi fazer uma cotação e percebi que o preço ficava muito abaixo dos sites oficiais de locação de motos, exatamente pelo fato de ser direto com o proprietário. Ao receber a resposta, bem rápida por sinal, uma nova surpresa, o sujeito era um brasileiro de nome Sven, morando nos Estados Unidos há mais de 30 anos e com várias opções de motos para locar. Que maravilha, pensei.

A partir disso foram muitas alegrias. O Sven me ajudou a escolher o melhor modelo, deu dicas de capacetes e de legislação de trânsito e até mesmo me recomendou os melhores caminhos para ver paisagens mais bonitas e aprender sobre a cultura local do interior dos Estados Unidos. Fechei tudo com ele e no dia 08 de março, com uma ansiedade de gerar dor de barriga, encontrei-me com ele em Miami.

A recepção foi excelente. Sven fez uma entrega técnica, me mostrou tudo sobre a moto, deu várias dicas e recomendações. Ainda fez um vídeo de minha saída e me mandou pelo WhatsApp. Estava oficialmente começando a minha viagem para Daytona Beach.

Eu havia comprado um chip da T-Mobile e levado um suporte de guidão para usar o celular como GPS. Escolhi a rota e segui viagem. Percorri uma longa distância pela TurnPike e pela 95, estradas que ligam Miami a Daytona. Depois de 6 horas de viagem, respeitando a legislação de trânsito e aproveitando o passeio e a paisagem, cheguei a Daytona onde tinha uma reserva no Hawaiann Inn resort.

Questões marcantes neste percurso é que as estradas são muito bem sinalizadas. Mas se você viaja por uma via expressa, não há nada ao longo da rodovia. Não se pode construir às margens dessas estradas rápidas. Assim, sempre que for necessário abastecer, você precisará escolher uma das várias saídas existentes e achar um posto. Não se preocupe, tem uma dessas saídas mais ou menos a cada 5 ou 10 km. Eu parei 5 vezes para abastecer e não tive qualquer dificuldade para sair e entrar na rodovia.

Ao chegar à cidade, fui ao hotel, fiz check-in, um banho rápido e segui para a Main Street, lugar em que os motociclistas se reúnem. Muitas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas foi a organização. Muito policiamento e muito respeito às regras. Não vi, por nenhuma vez, motos circulando por corredores de trânsito. Além disso, nenhuma moto te ultrapassa dentro da mesma faixa de rodagem. Ela vai para a segunda pista após dar seta, faz a ultrapassagem e retorna para a pista da direita. No sentido contrário, todos, sem exceção, levam a mão esquerda para baixo cumprimentando o companheiro de estrada. Uma demonstração de respeito e fraternidade entre os irmãos motociclistas.

O evento em si é uma história a parte. Você encontra de tudo. Motos de todos os tipos e adaptações. As que mais me chamaram atenção tinham até carro lateral carregando um pequeno cavalo, parecia um pônei. Outros tinham caveiras e dezenas de enfeites. Muitas deles continham leds coloridos. Mas a sensação do momento era as grandes motos com potentes sons tocando rock.

Na avenida principal havia vários bares de entrada livre com garotas sensuais dançando seminuas. Eu me sentia em um filme americano. Notas sendo colocadas na calcinha das meninas enquanto elas exibiam seus corpos. Pessoas de todas as tribos, inclusive muitas mulheres. Isso foi peculiar. Eram várias mulheres pilotando grandes motos. Não era uma ou outra. Eram centenas delas. Para quem acha que encontro de moto ainda é coisa para homens, melhor se livrar desses velhos preconceitos. As mulheres tomaram conta também de Daytona.

Fiquei muito impressionado com tudo que vi. Não encontrei outros brasileiros, o que me chateou um pouco. Aproveitei isso para mostrar que o Brasil se fazia presente. Comprei uma jaqueta e pedi que colocassem um bordado com a bandeira do Brasil. Pronto. Era o que faltava para melhorar ainda mais a viagem. Ao ostentar a bandeira do Brasil bem no peito as pessoas passaram a me parar e a fazer várias perguntas. Ficavam impressionadas com o fato de haver um brasileiro em terras distantes, pilotando uma Harley Forty Eight de 1200 cilindradas. Acabei fazendo sucesso e várias novas amizades.

Infelizmente tudo que é bom dura pouco. Depois de 3 dias em Daytona chegou a hora de voltar pra Miami e devolver a moto. Decidi passar por um caminho diferente e, em vez de voltar pela mesma estrada, resolvi seguir pela US 1. Essa estrada passa o tempo todo pelo litoral, garantindo lindas paisagens. O ponto negativo é que, por passar dentro das cidades havia todo o trânsito, principalmente na hora do rush. A viagem ficou mais lenta e com mais consumo de combustível. Em vez de 6 horas, gastei mais de 10.

Mas o consumo não era o problema. O problema foi que a Harley que aluguei tem baixa autonomia porque tem tanque bem pequeno. Conseguia andar, em média, apenas 140 quilômetros com um tanque. Ao acender a luz de combustível só era possível dirigir por mais 20 milhas antes de ficar na mão. Com isso eu tive que parar várias vezes para abastecer. Mas, isso não é um problema quando a gasolina custa 1,20 reais o litro. Ao todo, andando quase 1000 km, gastei em torno de 40 dólares.

Outro detalhe que me chamou a atenção foi o fato de haver uma pista expressa disponível em algumas estradas. Você pode pegá-las, caso tenha muita pressa. O valor de 50 centavos de dólar te permite passar por esta pista livre. Caso não queira gastar, passa pela mesma estrada nas pistas mais à direita. A cobrança é sempre eletrônica. Não havia o posto de pedágio.

No caminho de volta ocorreu um infortúnio. Eu tinha uma bateria externa no bolso da mochila. Com o vento, o cabo que conectava o celular a essa bateria acabou se soltando e ela caiu na roda da moto e se partiu em pedaços. Sem cabo, em pouco tempo fiquei sem bateria, consequentemente, sem celular e sem GPS. O que parecia algo desesperador se tornou apenas adrenalina para mais uma aventura. A sinalização das estradas é tão boa que, com uma pequena noção do caminho eu consegui fazer todo o percurso de volta até o hotel em Miami Beach. Sem mapas e sem celular. Apenas me orientando pelas placas.

Já era noite no final da minha aventura de 1000 km pelas estradas americanas. Ao atravessar a ponte que liga Miami e Miami Beach eu me emocionei. A felicidade era gigante. O desafio havia sido concluído com sucesso absoluto e eu estava maravilhado com a experiência. Com mil planos para, na próxima viagem, alugar uma moto com o Sven para ficar uns 20 dias viajando por aquelas estradas instigantes, com trânsito respeitoso e combustível barato. Tudo que um brasileiro sonha em ver em seu próprio país.

Depois de chegar, descansei um pouco. Apenas no dia seguinte eu tinha que entregar a moto. Então aproveitei para passear pela agitada orla de Miami Beach, curtindo pilotar sem capacete pelas ruas. Vento no rosto, cabelos bagunçados e coração emocionado. Foi como me senti ao pilotar pela Ocean Drive, rua mais turística da cidade.

No dia seguinte, ao me encontrar com o Sven, contei parte da aventura e prometi que divulgaria sua empresa. Não como propaganda, uma vez que ele não me deu qualquer desconto… rsrsr. Mas como uma ajuda aos motociclistas brasileiros que sonham em fazer uma viagem como essas e não o fazem em razão de criar, mentalmente, dificuldades que não existem.

TEXTO: ALEXANDRE BASÍLIO COURA

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