Especialistas se reúnem para examinar mortes por consumo de drogas nos EUA

A agência do governo americano para repressão e controle de drogas, a DEA, reúne neste domingo (11) os mais renomados especialistas em dependência química do país, em mais uma tentativa de frear os sucessivos recordes de mortes por overdose de drogas legais e ilegais, principal problema de saúde pública nos Estados Unidos.

A iniciativa dá sequência a uma reunião convocada em março pelo presidente Donald Trump para discutir ,com diversos órgãos federais, medidas de combate à “epidemia dos opioides”, como está sendo chamada.

Estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) apontam para 74 mil mortes no ano passado, o que torna as overdoses mais letais que os acidentes de trânsito e os ataques por armas de fogo.

Em 2016, esse número fechou em 64 mil mortes, e o uso de opioides esteve associado a 42.249 dos casos (66%). Estudiosos do assunto apontam a falta de critérios para a prescrição de opioides e o comércio ilegal como as principais causas a serem enfrentadas.

A escalada das mortes por overdose por drogas nos EUA começou no início da década de 2010, principalmente vinculada à prescrição excessiva de Oxycontin e outros analgésicos legais, fazendo com que mais de 2 milhões de pessoas se viciassem. Hoje, o país tem mais usuários de drogas psicoterapêuticas do que de cocaína, heroína e alucinógenos somados.

As visitas aos departamentos de emergência por suspeita de overdoses por opioides aumentaram 30% em 45 estados americanos, entre julho de 2016 e setembro de 2017. Todas as cinco regiões do país experimentaram aumentos de taxa.

Nos últimos três anos, as autoridades tomaram medidas enérgicas contra a venda de analgésicos receitados, e os usuários se viram obrigados a recorrer ao Fentanil e à heroína, opioides mais baratos e muito mais potentes. O aumento acentuado nas mortes por overdose de drogas foi impulsionado justamente por um surto de Fentanil e de seu análogo sintético

“A indústria farmacêutica fez potentes prescrições de opioides, promovendo-as pesadamente aos médicos, que prescreveram esses medicamentos para quem desejasse, enquanto as farmácias davam avisos insuficientes aos pacientes”, disse o médico especialista em abuso de drogas e professor da Universidade de Buffalo, de Nova York, Richard Blondell. 

“Eventualmente, os pacientes dependentes se voltaram para fontes ilegais, enquanto os produtores de drogas ilegais de fora dos EUA, como os cultivadores de coca na América do Sul e os produtores de ópio na Ásia Central, consideram o mercado americano extremamente lucrativo”, acrescentou.

Para a psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química e doutoranda do Centro de Estudos em Álcool e Drogas (CPAD) da Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Sul (UFRS), as autoridades americanas, no momento, estão envolvidas com o desafio de fazer uma ampla revisão dos protocolos de manejo da dor. Segundo ela, nos últimos anos se consolidou nos EUA uma cultura médica baseada na aplicação de analgésicos mais potentes nas etapas iniciais dos tratamentos, independentemente da gravidade da dor.

“O ideal seria iniciar o tratamento com um medicamento adequado ao nível da dor, para depois passar para um mais potente, como o Fentanil, se for o caso”, disse a especialista. Ela acrescenta que muitos médicos americanos se sentem à vontade para prescrever opioides por acreditarem que pacientes que nunca usaram drogas ilícitas não se tornarão dependentes. “Há um grande preconceito nessa questão, sem qualquer fundamento. Uma pessoa que nunca usou drogas ilícitas pode muito bem desenvolver dependência de opioides nos primeiros 15 ou 30 dias de uso, apresentando, inclusive, graves sintomas de abstinência”, disse a psiquiatra.

 A expressiva mortalidade por overdose nos EUA tem levado o governo americano a reforçar a pressão sobre países que são grandes produtores de drogas, como a Colômbia, maior fabricante mundial de cocaína. 

O novo presidente colombiano, o conservador Iván Duque, antes de tomar posse, foi instado por autoridades americanas, como o secretário de Estado, Mike Pompeo, a reforçar a repressão contra o cultivo da folha de coca, embora esse tipo de cultura não esteja necessariamente associado, no país, à produção de drogas ilícitas.

 Especialistas observam, no entanto, que o nível de produção de entorpecentes é diretamente proporcional à demanda, e entendem que os EUA devem fazer o dever de casa, atuando para conter o abuso das drogas legais e ilegais.

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