Crianças imigrantes não reconhecem pais após meses separadas nos EUA

A mãe esperou quatro meses para abraçar novamente seu filho pequeno. Uma outra aguardou três meses para rever sua filha. Quando os reencontros finalmente aconteceram na terça-feira, em Phoenix, capital do estado americano do Arizona, as mulheres foram recebidas com gritos de rejeição das crianças.

“Ele não me reconheceu”, disse, com os olhos cheios de lágrimas, Mirce Alba Lopez, de 31 anos, referindo-se ao filho Ederson, de 3 anos. “Minha alegria se transformou em tristeza”, lamentou.

Com Milka Pablo, de 35, a situação não foi diferente. Sua filha Darly, de 3 anos, berrou e tentou se desvencilhar de seu abraço.

“Eu quero a Miss, eu quero a Miss”, chorou Darly, chamando pela assistente social do abrigo onde está vivendo desde que foi separada de sua mãe por agentes federais, na fronteira do sudoeste.

Essas reuniões — ordenadas por um tribunal da Califórnia — aconteceram depois que o governo informou que irá libertar centenas de famílias imigrantes com tornozeleiras eletrônicas nos Estados Unidos, retornando à política “catch and release” (prender e libertar) que o presidente Donald Trump prometeu eliminar.

Diante de duas ordens judicais que restringem a detenção de imigrantes, autoridades federais afirmaram que não podem manter presas todas as famílias que foram capturadas na fronteira. Eles disseram que estão de mãos atadas com as exigências para libertar crianças detidas há mais de 20 dias e mantê-las com os pais ou outros parentes.

Funcionários do governo Trump também disseram que pararam de encaminhar para a acusação migrantes adultos que entram nos Estados Unidos com crianças.

“Crianças abaixo de 5 anos estão sendo reunidas com seus pais, que, em seguida, são libertados e inscritos em um programa alternativo de detenção”, disse Matthew Albence, diretor-executivo associado de Operações de Remoção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, sigla em inglês).

Albence explicou que isso significa que imigrantes irão receber tornozeleiras eletrônicas “e serão liberados”.

Autoridades do governo disseram que estão batalhando para cumprir o prazo determinado pela Justiça para reunir as 102 crianças com menos de 5 anos ao seus pais. A expectativa é que apenas um terço dessa meta seja cumprido.

Os reencontros que já aconteceram foram caóticos. Os pais foram avisados de que os horários das reuniões poderiam mudar ao longo do dia. A agência federal que supervisiona o atendimento às crianças migrantes, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, ainda estava conduzindo verificações de antecedentes dos pais na manhã de terça-feira.

Em Phoenix, as reuniões foram marcadas pela confusão e pela mágoa. Enquanto Alba Lopez e Milka Pablo esperavam em uma estação de ônibus para embarcar no sentido leste, seus filhos se chamavam de irmão e irmã. Eles ainda não haviam falado mami (mãe, em espanhol) para as mulheres os estavam abraçando, aconchegando e alimentando. Mas estavam mais calmos, disseram as mães.

Darly, que havia aprendido a usar o penico antes da separação, voltou a usar fraldas. Ederson saltou para cima e para baixo no colo da mãe e derrubou biscoito com entusiasmo. Todos os adultos foram equipados com tornozeleiras eletrônicas.

“Eu quero ir com minha irmãzinha”, disse Ederson, apontando para uma criança de um ano chamada Carmen que estava nos braços do pai, Denis Espinoza, um hondurenho que fora liberado da prisão depois de 20 dias separado de sua filha.

“Olha só. Ele pensa que é irmão dessas crianças”, disse a mãe de Ederson.

O Departamento de Justiça destacou que a política de tolerância zero à imigração — que foca em processar todos os adultos que entram ilegalmente nos Estados Unidos, mas não necessariamente através da detenção — ainda estão intacta.

O órgão também afirmou que está processando todos os casos que recebeu dos agentes de imigração. O procurador-geral Jeff Sessions espera que a dura posição contra a imigração vá desestimular a entrada ilegal no país.

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