Rio-pretense leva pesquisa sobre fanzine aos Estados Unidos

Mídia alternativa que foi bastante explorada nos anos 1980 e 1990 por diferentes grupos sociais, para o compartilhamento de ideias, criações e novidades sobre os mais variados segmentos artísticos e culturais, o fanzine não saiu de cena com o advento da tecnologia. Essa forma de comunicação pautada pela praticidade, criatividade e liberdade tem sido muito usada na expressão artística e no fortalecimento de redes, como aponta a rio-pretense Camila Puni, que pesquisa a linguagem e a estética dos fanzines no universo acadêmico.
Colagista, artista, pesquisadora e educadora com doutorado em Arte e Design, ela embarca para a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, em fevereiro, quando compartilhará um pouco de sua pesquisa com a comunidade acadêmica da Universidade de Tulane. Na bagagem, atendendo a uma solicitação da própria universidade, ela leva uma série de fanzines com temática feminista que fazem parte de seu acervo.
Apaixonada por zines (como também são chamadas essas mídias) desde a adolescência, Camila recorreu a esse formato alternativo de publicação em sua primeira experiência como professora, com turmas do Ensino Fundamental. “O fanzine é uma plataforma muito livre, experimental e, sobretudo, barata. Sem contar seu aspecto tátil, que é algo raro nesse mundo contemporâneo e tecnológico”, comenta a rio-pretense, que se dedicou ao estudo dessa mídia tanto em sua dissertação de mestrado como em sua tese de doutorado, defendida na PUC-Rio em 2019. Ela também é autora do material pedagógico “Didática-zine”, publicado pela editora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de ter inúmeros fanzines xerografados.
Na Universidade de Tulane, Camila desenvolverá o seu trabalho em três frentes. Primeiramente, ela realizará uma curadoria em seu próprio acervo de fanzines, tendo como recorte tanto a Língua Portuguesa como a temática feminista. “Venho acumulando fanzines há quase duas décadas, desde a virada dos anos 2000”, conta.
A rio-pretense ainda compartilhará um pouco de sua pesquisa em torno da linguagem e da estética do fanzine, destacando os diversos usos contemporâneos desse tipo de mídia alternativa. “Hoje, os zines funcionam mais como um plataforma artística, para a expressão de sentimentos e emoções de forma estética. Os aspectos crítico e político também se fazem presentes, entretanto estão mais relacionados à construção de redes, uma forma de estabelecer comunicação com aqueles que compartilham das mesmas ideias e ideais”, comenta.
Camila também comandará uma oficina de criação de fanzines, o que, segundo ela, evoluiu ao longo do tempo assim como a própria área do design. “Nos anos 1990, os zines eram feitos com ferramentas muitos específicas, como a xerografia [processo de reprodução de cópias], as canetas pretas e os recortes de jornais e revistas. Hoje, é possível criar a partir de qualquer coisa que faz parte do universo da papelaria. O aspecto experimental é mais potente na atualidade.”
A rio-pretense também destaca o aspecto efêmero do fanzine na atualidade. “É algo que se cria para expurgar aquilo que inquieta os pensamentos, e que você pode criar em apenas uma sentada. Não há uma preocupação com a permanência dessa mídia, mas sim com o compartilhamento”, reforça.

Camila Puni desenvolve o projeto Tesoura Feminista Zen
Além de todo o trabalho em torno dos fanzines, Camila Puni também desenvolve, há cerca de oito anos, o projeto Tesoura Feminista Zen, que segue o conceito do “holistic hairstylist”, expressão em inglês que designa o movimento de artistas da tesoura que se preocupam com o aspecto energético e terapêutico dos cabelos. “A tesoura, enquanto objeto, sempre fez parte da minha vida. Sempre me dediquei ao seu estudo assim como um instrumentista se dedica a um instrumento musical. Aliás, o próprio trabalho com o fanzine tem relação com a tesoura”, diz.
Camila conta que as primeiras experiências que resultaram na criação do projeto deram-se em 2011, em um festival na cidade de Salvador (BA), quando ela comandou uma oficina para ensinar as pessoas a cortarem o próprio cabelo. “Fui agregando técnicas holísticas, como o reiki, com o tempo. O ápice deu-se em 2016, quando eu morava no Rio. Era um período pós-golpe, e muitas das minhas amigas estavam adoecendo com as angústias relacionadas à dinâmica social e política. Quis trazer esse aspecto holístico para o corte de cabelo até como uma forma de combater o medo e o estresse”, explica.
Aliás, Camila teve a oportunidade de levar seu projeto para os EUA em 2019, quando participou de uma residência artística na cidade de Los Angeles, dentro do coletivo La Zine Fest. Ela ainda fez trabalhos de “holistic hairstylist” em Portugal e na Espanha.
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