Ativista desvenda adoções ilegais de crianças nascidas em abrigos católicos

Ativista relata a própria história e desvenda a trama das adoções ilegais de crianças nascidas em instituições católicas e traficadas para os Estados Unidos, um escândalo que abalou o governo e levou o líder da Igreja a pedir perdão

Eu ficaria feliz em responder a suas perguntas sobre o tráfico de crianças da Irlanda para os Estados Unidos. Na verdade, eu mesma sou uma dessas crianças, nascida em Cork, em 1960, e adotada por uma família americana em 1961.” Assim, com uma espontânea e surpreendente revelação sobre a própria vida, a ativista Mari Steed, 58 anos, dirigente de duas organizações internacionais de combate a adoções ilegais, concordou em falar ao Correio a respeito de um escândalo conhecido na Irlanda como “vergonha nacional”: as descobertas de uma comissão de inquérito sobre adoções ilegais, abusos, negligência e mortes de milhares de mulheres e crianças em instituições mantidas por congregações católicas. Essas tristes revelações balançaram os alicerces do governo irlandês e levaram o papa Francisco, durante recente viagem ao país, a pedir “perdão por aqueles membros da hierarquia que não se responsabilizaram por essa dolorosa situação e permaneceram em silêncio”.

Steed é coordenadora, nos EUA, da organização não governamental (ONG) Adoption Rights Alliance (Aliança dos Direitos de Adoção) e diretora e cofundadora da Justice for Magdalenes Research (“Pesquisa pela Justiça para as Madalenas”). A primeira, segundo o site, tem o objetivo de “defender direitos humanos e civis iguais” das vítimas do “sistema secreto de adoção da Irlanda”. A outra trabalha pelo avanço das pesquisas sobre atrocidades cometidas em instituições mantidas até o fim do século passado por congregações católicas.

Mari Steed nasceu em 1960, quando sua mãe biológica, Josie, era uma das internas da Casa da Mãe e do Bebê de Bessborough, na cidade irlandesa de Cork. Para várias instituições como essa eram levadas gestantes solteiras, prostitutas e de outros perfis, rejeitadas pelas famílias e por uma sociedade altamente influenciada pelos dogmas católicos. Em troca do abrigo e da assistência durante a gravidez, as mães eram obrigadas a assinar um termo se comprometendo a entregar os filhos para adoção.

A ativista conta que foi adotada por um casal norte-americano, quando tinha apenas 1 ano de idade. Embora considere que não houve ilegalidade no processo, à luz da Lei de Adoção irlandesa de 1952, Steed condena o fato de sua mãe não ter tido qualquer apoio ou alternativa além de entregá-la para a família americana.

“Minha mãe natural assinou a renúncia com o pleno conhecimento de que estava entregando todos os direitos sobre mim e de que eu estava indo para os EUA”, relata Steed. “No entanto, enquanto as leis domésticas foram seguidas, houve abusos, tanto dela quanto de meus direitos humanos. Porque, toda vez que uma criança é removida do país de origem sem alternativas ou sistema de apoio dado aos pais naturais para criá-la, está caracterizado o tráfico humano. É uma violação dos direitos humanos e civis”, critica.

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