Advogados relatam difícil trabalho de contar a realidade a imigrantes nos EUA

“Disseram que quando eu sair do tribunal, o meu filho estará me esperando”. Esta é a frase mais repetida pelos imigrantes ilegais detidos na fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas ninguém realmente está lá fora. E alguém precisa ser o responsável por dar essa notícia e fazer essa pessoa enfrentar a dura realidade.

A dramática tarefa, geralmente, fica para os advogados que trabalham nos fóruns de cidades como McAllen e Brownsville, no Texas, e exatamente na fronteira com o México. Diariamente, eles veem centenas de pessoas levadas aos juízes após serem separadas de seus filhos ou familiares menores de idade. “Comecei a gaguejar. Não queria mentir, mas a realidade é muito dura de contar nas primeiras vezes. A criança pode ter ido para outro estado a milhares de quilômetros de distância e não sabemos quando voltará”, explicou à Agência Efe o diretor do Programa de Justiça Racial e Econômica do Texas Civil Rights Project (TCRP), que auxilia imigrantes, Efrén Olivares.

Advogado, ele é um dos mais ativos na defesa dos imigrantes encontrados na fronteira e disse que 95% das famílias que ouvem a promessa de ver o filho na saída do julgamento, obviamente, “começam chorar” quando descobrem que não é assim. “Quando voltarei a ver então?”, perguntam os pais, já que, apesar da situação em que estão, a maior preocupação é o paradeiro das crianças.

Nesse momento, Olivares admite que quem se abala é ele, pela incerteza que cerca o processo de reunificação e por precisar dizer que o único que pode garantir que a criança está “bem cuidada” em algum abrigo e que trabalhará para que todos estejam juntos o mais rápido possível. “Para bem ou para mal, você perde um pouco a sensibilidade. Chega um momento em que você não se afeta emocionalmente mais com tanta facilidade, a capacidade de se impactar com a notícia se esgota, mas ver uma mãe chorar, por exemplo, é sempre muito forte para mim”, admitiu.

As medidas de “tolerância zero” na fronteira, impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em abril, provocaram a separação de cerca de 3 mil crianças. A situação piorou com a falta de registo e documentos que, com o passar das semanas, está dificultando o processo de reunificação.

“São amigos ou colegas de anos. Companheiros que, de repente, por uma política que está acima nos colocamos em lados moralmente opostos e aí é difícil não afetar a relação pessoal. Da noite para o dia, passa a ser contrário ao que faz a pessoa que você vê todos os dias, cumprimenta ou toma um cafezinho. É difícil continuar como se nada tivesse acontecido, continuar conversando amenidades ou perguntar o que a pessoa está achando da Copa (do Mundo) sem pensar no restante”, contou.

Em um artigo que Olivares publicou no jornal “The New York Times”, ele narrou uma dessas histórias “emocionantes” que confirmam a necessidade de continuar o trabalho que vem fazendo. No relato, um pai solteiro, cuja esposa saiu de casa e o deixou com a filha de 3 anos, foi detido na fronteira quando entrava com a menina nos Estados Unidos fugindo da violência de Honduras e em busca de uma vida melhor.

O governo americano o acusou do entrar ilegalmente no país e os agentes disseram que tinham que levar a criança. Da mesma forma que no filme “A vida é bela”, de acordo com Olivares, a prioridade deste pai era proteger à menina da dor e da separação, e para isso inventou que ela seria levada para uma colônia de férias.

Alheia à difícil situação, ela se afastou, sorridente, e deixou o pai, numa cena em que ninguém conseguiu conter as lágrimas.

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