Crime em Araçariguama: quem tirou a vida da menina Vitória?

Há algo de muito errado quando uma criança, em Araçariguama (SP), sai para brincar de patins bem perto de casa e não volta mais. A cidade é pequena, tem 17 mil habitantes e o sossego que muitos buscam para escapar da violência. É ligada por uma estrada a Mairinque, a 20 quilômetros, que passa por uma mata.

Cuidado com a serpente escondida sob a relva, advertiu o poeta latino Virgílio numa das suas poesias líricas. Havia uma serpente com pernas, oculta numa trilha. Ela picou, com seu veneno mortal e brutalidade desumana, a menina dos patins.

O corpo da menina foi encontrado de bruços, sem os patins cor de rosa e um par de chinelos ao lado. Os moradores de Araçariguama ficaram inquietos. Quando o medo invade os corações, não adianta colocar trancas nas janelas, escreveu Truman Capote no seu A Sangue Frio. Ele falava de Holcomb, Kansas, Estados Unidos, lugar vivendo a angústia de dias terríveis após o assassinato de uma família. Araçariguama, no interior de São Paulo, é como o pacato lugar narrado pelo escritor. Sente medo.

Uma menina que some. Vitória Gabrielly. Doze anos de idade. Quase ninguém se importa com isso, acontece muito, mas o Cidade Alerta, da RecordTV, se importou. Registrou o sumiço, entrevistou pai e mãe, forçou a Polícia a se mexer com mais afinco. Uma semana depois, a suspeita se confirmou: o desaparecimento era assassinato. O caso comove o País.

Comoveu a mim, também. Não consigo administrar emoções fortes quando a vítima é uma criança. Ganhei, faz tempo, uma condecoração do Departamento de Homicídios, um órgão da Polícia Civil que sempre admirei, por homenagem a meu trabalho no jornalismo investigativo. Com seus policiais, aprendi muita coisa. Ali pontificaram mestres da investigação, como Coriolano Cobra, Vidal Fernandes, Jorge Miguel, Benedito Pacheco, Paulo Leandro e tantos outros. Sei o que deve ser feito e como se fazer.

Fui a Araçariguama várias vezes. A delegacia é modesta, os recursos são parcos, mas dá para tocar na vida provinciana: como a cidade é tranquila, a delegacia fecha as portas às noites de sexta feira e só as reabre na segunda. Um plantão policial, atende em São Roque.

Local de crime tem de ser preservado. Ninguém pode mexer. Mas o corpo de Vitória ficou longos dias ao relento. Durante o longo espaço de tempo para ser encontrado, choveu e garoou, ventou e fez frio. Buscas foram feitas, em vão, para encontrar a então desaparecida. O encontro foi feito por um humilde catador de latinhas e por Salsicha, seu cão vira-latas. Ele chegou perto, fez alarde, muitas pessoas foram lá e o local ficou prejudicado para perícia. Quem apareceu para conferir foi a Guarda Municipal. Só depois chegou a Polícia. Não é assim que se faz.

Fatos: corpo encontrado com a roupa que usava no dia em que desapareceu. Cadarços dos patins foram usados para amarrá-la a um pequeno tronco. Um pé de meia estava enfiado na boca. Ausência de sinais de abuso sexual.

Interpretações: a menina foi levada à força para o local, ficou à mercê do algoz (ou algozes) antes de entrar na trilha da morte, já sem os patins. Meia para não gritar. Asfixia por estrangulamento.

Quem foi? Uma confissão de autoria e desdobramento acusatório para mais duas pessoas — um homem e uma mulher. O trio da morte, acusado pelo crime.

Verossímil? Tecnicamente, não é simples. Não basta alguém falar, isoladamente, o que se considera na Justiça como “prostituta das provas”. Confessar, e só, é considerado frágil. Provas são necessárias. A Polícia sabe disso e a Justiça mais ainda. Ainda mais nesses tempos tenebrosos em que vivemos, quando — desculpe a ironia — é possível absolver, como já vimos em Brasília, por excesso de provas, e não por falta delas. Marco Antônio Desgualdo, delegado aposentado, foi excelente policial do Departamento de Homicídios: começou ali como investigador e chegou a diretor. Para dar robustez aos inquéritos, mandava os policiais assistirem a julgamentos pelo Tribunal do Júri, nos casos em que a investigação fora feita pelo departamento. Aprendeu quando a defesa se aproveitava de vácuos investigatórios e faltava algo mais para o promotor argumentar. Falhas eram corrigidas nos futuros inquéritos. É assim que funciona: crime de morte é julgado por um tribunal popular, sete pessoas, que são os juízes de fato. O juiz togado faz a dosimetria da pena, de acordo com as respostas dos jurados a cada quesito formulado. Será assim no caso Vitória.

E agora, com três acusados na alça de mira como autores do crime? Entenda: se um denunciante não aparecesse, Júlio Cesar, não haveria fio da meada nessa novela policial, tão emocionante que identificar o assassino equivale a exibir um troféu. Por isso mesmo, conversei longamente, por várias vezes, com Acácio Leite, o delegado chefe da Delegacia de Investigações Gerais (uma espécie de mini-Deic) da Seccional de Polícia de Sorocaba. Ele me disse: “Essa investigação é um oceano e, dentro dele, Júlio é a boia na qual temos que nos agarrar”. Gostei da metáfora. Retribuo: num oceano, a boia é atingida por ondas, fracas ou fortes. Mesmo nas proximidades da praia, não se pode confundir impacto da onda com farfalhar frívola da espuma. Seria uma derrota no caso em que a vítima se chama Vitória.

Quem é Júlio Cesar? Uma figura estranha, que apresentou oito versões diferentes para o arrebatamento de Vitória. Quando menor de idade, ele já mexia com drogas e numa apreensão atirou nos policiais, aliás de Mairinque. E foi nessa cidade que alguém o denunciou como autor do sequestro de Vitória. Policiais militares do pelotão local levaram-no para a delegacia de Araçariguama. O tenente que o conduziu me disse que acha Júlio “maluco”, opinião corroborada por outros policiais, lembrando que ele assumiu, fantasiosamente, a autoria de outros crimes na região. Fiquei confuso e, frente a frente, mirei-o profundamente. Pareceu-me esquisito, pondo a língua de fora. Isso, porém, é subjetivo. Sua aparência poderia sugerir para Lombroso, criminólogo italiano, a teoria do criminoso nato por causa de algumas características físicas. Estudei criminologia: Lombroso foi como café: excitou a todos e não nutriu a ninguém. Palavras voam, provas ficam.

Acreditar ou não em Júlio, eis a questão. No último final de semana, informou-se que sob as unhas de Vitória havia sinais da pele de Júlio. Esperou-se pelo laudo redigido, que afirma — no exame de dez fragmentos de unhas de Vitória — que a prova é “condizente”. Não é peremptória e sim possível. É o que está escrito. Você, detetive ou juiz, decide: ele diz que estava num carro quando Vitória foi arrebatada, em companhia de um casal. Mas só até certo ponto: depois, o homem e a mulher ficaram com a menina e ele não sabe mais o que aconteceu. É verdade ou meia verdade? O material genético poderia colocá-lo na cena do crime ou se limitaria a conduzir a menina, à força, para o carro ou já dentro dele? Júlio conta as coisas desse modo para se eximir de responsabilidade mais grave? O casal jura quer nada tem a ver com o crime. E então?

O casal também foi preso. O juiz da 1ª Vara Criminal de São Roque, ao decidir pela prisão dos dois, disse que ambos são de “índoles duvidosas” e “mendazes”, ou seja, mentirosos e hipócritas que querem a “ocultação da verdade”, tornando suas prisões necessárias para evitar o “esvaziamento da investigação”. E que o homem do casal teria a presença detectada por cães farejadores (ao cheirar a sola de um tênis do suspeito) no local do encontro do corpo de Vitória. Ele teria passado por ali. Mas… não existe laudo em medicina legal que aponte algum tipo de perícia possível para olfato canino e a acentuada percepção dos cães. Nenhum desembargador, em instância superior, poderá considerar muito essa e outras argumentações.

Entra em cena, ainda, um usuário de drogas, que poderia ser o verdadeiro alvo dos sequestradores da menina. Ele tem uma irmã com o mesmo nome e idade da vítima. Devia dinheiro para traficantes em Mairinque, que poderiam ter arrebatado outra Vitória, por equívoco, para obrigá-lo a pagar. Fato é que ele foi à rua onde mora a mãe de Vitória, a vítima, pensando que o arrebatamento fora de sua irmã, querendo uma moto emprestada porque sabia onde estava a menina. Isso quer dizer que traficantes o avisaram do sequestro. Apesar de tudo, ele nega tais circunstâncias, embora não deva se preocupar com isso: usar droga é tentar preencher um vácuo existencial. Não é crime.

Vitória gostava de patinar e tirar fotos, como se fosse uma modelo-mirim. Sonhava com essa carreira no futuro. Estava feliz: na semana seguinte ao desaparecimento, tinha passeio marcado com colegas de escola, colégio adventista, a um parque temático. Por tudo que todos dizem, jamais entraria num carro sozinha. Resistiria. Então, se entrou no carro é porque conhecia quem a convidou. Sendo assim, o assassino é alguém dentro do seu círculo de relacionamento, que a surpreendeu. Na etapa final do sequestro, é possível afirmar que a execução foi feita por outra pessoa ou pelo menos duas pessoas, cerca de dez horas após o sequestro. Não há alternativa para outras hipóteses no local do crime. São impensáveis. (fonte: R7)

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